A safra brasileira de milho 2025/26 entra no ciclo com um desenho estrutural mais apertado, mesmo mantendo projeção de volume elevado. Para a Biond Agro, a produção total é estimada em 137,5 milhões de toneladas, abaixo das 141 milhões registradas em 2024/25. Ao mesmo tempo, a demanda deve avançar de 133,8 milhões para 141,8 milhões de toneladas, impulsionada principalmente pelo consumo interno, com destaque para a indústria de etanol de milho e o setor de proteína animal.
O ponto de atenção não está apenas no tamanho nominal da safra, mas na redução da margem de segurança do balanço. O estoque final projetado recua de 10,8 milhões para aproximadamente 8,2 milhões de toneladas, o que representa cerca de 6% do consumo total — patamar historicamente mais sensível e com menor capacidade de absorver perdas produtivas adicionais sem impacto nos preços.
Atraso no plantio amplia exposição ao risco produtivo
A produtividade da segunda safra é estruturalmente dependente do calendário de implantação. Como o milho é semeado após a colheita da soja, atrasos na oleaginosa deslocam toda a dinâmica operacional. Em 2025/26, parte relevante das áreas já iniciou o ciclo com atraso estrutural, e as chuvas recentes intensificaram a lentidão da colheita, comprimindo a janela ideal de plantio.
O Centro-Oeste, principal núcleo produtor, não enfrenta falta de chuva neste momento. Pelo contrário: o excesso hídrico tem dificultado a entrada de máquinas no campo. A comparação com o mesmo período do ano passado não indica deterioração climática relevante, mas o risco atual é operacional.
Balanço mais justo cria suporte estrutural aos preços
O aperto do balanço se intensifica na comparação histórica. Após um ciclo 2023/24 marcado por estoques finais equivalentes a apenas 2% do consumo, a temporada seguinte trouxe recomposição para 8%. Agora, a projeção de 6% recoloca o mercado em um nível intermediário, mas ainda sensível.
A combinação entre menor produção projetada e crescimento da demanda doméstica reduz a elasticidade do sistema. Em termos práticos, uma perda de apenas 5% na segunda safra representaria cerca de 5 milhões de toneladas a menos, volume suficiente para alterar de forma significativa o equilíbrio entre oferta e demanda.
“O milho passa a contar com um suporte estrutural mesmo antes de qualquer evento climático adverso mais severo. Com estoque mais ajustado, o mercado tem menos capacidade de absorver desvios produtivos. O balanço mais justo funciona como um piso estrutural para o milho e um potencial suporte aos preços”, afirma Jordy.
Além da dinâmica doméstica, o ambiente cambial tende a influenciar o escoamento da safra. Após um período em que o real depreciado elevou o preço do milho brasileiro em dólar e reduziu sua competitividade internacional, a recente apreciação da moeda pode favorecer as exportações e ampliar a demanda externa ao longo do ciclo.
No campo climático, há ainda a possibilidade de transição para El Niño no segundo semestre de 2026. Embora o fenômeno não implique automaticamente quebra de safra em nível nacional, ele aumenta a variabilidade regional. Para a segunda safra, o risco está menos no evento isolado e mais na combinação entre plantio tardio e eventual irregularidade de chuvas no enchimento de grãos.
“A curva futura, no entanto, ainda não incorpora prêmio climático relevante, refletindo expectativa de preservação do potencial produtivo projetado. Hoje o mercado ainda precifica normalidade. Mas, se o atraso ganhar escala e uma parcela relevante da área sair da janela ideal, a “reprecificação” pode ocorrer de forma rápida”, conclui Jordy.

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