Safrinha começa com menor margem de erro e pode aumentar volatilidade de preços no milho

Felipe Jordy, gerente de inteligência e estratégia da Biond Agro
Divulgação/Biond Agro

Biond Agro prevê que produção projetada recue até 3,5 milhões de toneladas, enquanto demanda avança 8 milhões; estoque final pode cair para 6% do consumo e ampliar volatilidade de preços

       A safra brasileira de milho 2025/26 entra no ciclo com um desenho estrutural mais apertado, mesmo mantendo projeção de volume elevado. Para a Biond Agro, a produção total é estimada em 137,5 milhões de toneladas, abaixo das 141 milhões registradas em 2024/25. Ao mesmo tempo, a demanda deve avançar de 133,8 milhões para 141,8 milhões de toneladas, impulsionada principalmente pelo consumo interno, com destaque para a indústria de etanol de milho e o setor de proteína animal.

O ponto de atenção não está apenas no tamanho nominal da safra, mas na redução da margem de segurança do balanço. O estoque final projetado recua de 10,8 milhões para aproximadamente 8,2 milhões de toneladas, o que representa cerca de 6% do consumo total — patamar historicamente mais sensível e com menor capacidade de absorver perdas produtivas adicionais sem impacto nos preços.

Além disso, a segunda safra, responsável por cerca de 79% da produção nacional, com estimativa de 108,3 milhões de toneladas, começa a ser implantada sob efeito de atrasos no calendário agrícola, resultado tanto do plantio tardio da soja quanto do excesso de chuvas que dificulta sua colheita. “O mercado ainda trabalha com um cenário-base confortável, mas o sistema entrou no ciclo com menos folga. Quando o estoque é mais enxuto, qualquer perda adicional ganha peso maior na formação de preços”, afirma o gerente de inteligência de mercado da Biond Agro, Felipe Jordy.

Atraso no plantio amplia exposição ao risco produtivo

A produtividade da segunda safra é estruturalmente dependente do calendário de implantação. Como o milho é semeado após a colheita da soja, atrasos na oleaginosa deslocam toda a dinâmica operacional. Em 2025/26, parte relevante das áreas já iniciou o ciclo com atraso estrutural, e as chuvas recentes intensificaram a lentidão da colheita, comprimindo a janela ideal de plantio.

O Centro-Oeste, principal núcleo produtor, não enfrenta falta de chuva neste momento. Pelo contrário: o excesso hídrico tem dificultado a entrada de máquinas no campo. A comparação com o mesmo período do ano passado não indica deterioração climática relevante, mas o risco atual é operacional.

A concentração geográfica da produção também amplia a relevância do calendário. Mato Grosso responde por aproximadamente metade do volume nacional e sustenta o equilíbrio agregado, enquanto estados como Goiás e Mato Grosso do Sul apresentam maior exposição ao atraso. “Quando a janela aperta, o risco deixa de ser apenas logístico e passa a impactar a produtividade. A partir da segunda quinzena de fevereiro, cada dia adicional de atraso reduz a probabilidade de capturar o melhor regime de chuvas”, explica Jordy.

Balanço mais justo cria suporte estrutural aos preços

O aperto do balanço se intensifica na comparação histórica. Após um ciclo 2023/24 marcado por estoques finais equivalentes a apenas 2% do consumo, a temporada seguinte trouxe recomposição para 8%. Agora, a projeção de 6% recoloca o mercado em um nível intermediário, mas ainda sensível.

A combinação entre menor produção projetada e crescimento da demanda doméstica reduz a elasticidade do sistema. Em termos práticos, uma perda de apenas 5% na segunda safra representaria cerca de 5 milhões de toneladas a menos, volume suficiente para alterar de forma significativa o equilíbrio entre oferta e demanda.

“O milho passa a contar com um suporte estrutural mesmo antes de qualquer evento climático adverso mais severo. Com estoque mais ajustado, o mercado tem menos capacidade de absorver desvios produtivos. O balanço mais justo funciona como um piso estrutural para o milho e um potencial suporte aos preços”, afirma Jordy.


Competitividade externa e clima adicionam novas variáveis ao cenário

Além da dinâmica doméstica, o ambiente cambial tende a influenciar o escoamento da safra. Após um período em que o real depreciado elevou o preço do milho brasileiro em dólar e reduziu sua competitividade internacional, a recente apreciação da moeda pode favorecer as exportações e ampliar a demanda externa ao longo do ciclo.

No campo climático, há ainda a possibilidade de transição para El Niño no segundo semestre de 2026. Embora o fenômeno não implique automaticamente quebra de safra em nível nacional, ele aumenta a variabilidade regional. Para a segunda safra, o risco está menos no evento isolado e mais na combinação entre plantio tardio e eventual irregularidade de chuvas no enchimento de grãos.

“A curva futura, no entanto, ainda não incorpora prêmio climático relevante, refletindo expectativa de preservação do potencial produtivo projetado. Hoje o mercado ainda precifica normalidade. Mas, se o atraso ganhar escala e uma parcela relevante da área sair da janela ideal, a “reprecificação” pode ocorrer de forma rápida”, conclui Jordy.


via assessoria

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